sexta-feira, 16 de março de 2012

Pisando em ovos...

Disse que me amava, mas não confiava em mim. Morria de ciúme. Tinha ciúme de ex, de pai, de mãe, de melhor amigo, de amiga, de colega de escritório, da minha sombra, ciúme. Tinha ciúme até de minhas memórias, de minhas músicas, de minhas novelas, de meus seriados, de meus livros e recordações anotadas em folhas de agenda passada de adolescente. E o ciúme crescia. Era um buraco negro puxando tudo à nossa volta, inclusive a nossa vontade de felicidade. E todos os dias eu acordava com um ovo a mais pisado pelo chão. E olha que eu era cuidadosa... Depois do primeiro ano, quase tive de aprender a voar, pra não esmagar as claras e gemas da relação. Mas como se sai do chão com tanto peso? Infelizmente, não aprendi. Não tinha asas. Nem era cientista maluco construtor de mochilas com foguetes. Daí, fiz o que podia. Permaneci pisando aquele chão de ovos. Até que aquela coisa toda começou a apodrecer. E o cheiro foi ficando insuportável. Tão insuportável que não tive outra saída: saí pela porta andando mesmo e, claro, quebrando os últimos ovos no chão da relação.


Domingas Alvim, BH, 3 de março de 2012.



sexta-feira, 2 de março de 2012

Gangorra

Você diz que sou louca, que me viro de um lado e sou uma, que te sorrio de canto e sou outra. Diz que vai mandar me internar e eu rio. Rio e te digo que pior do que eu só você! Você que escolhe me amar... Você que me ama loucamente, a mim, uma doida... Por que não me larga? Por que não me sai? Por que não aprende que é me deixando de lado que eu te vou atrás? Não sei domar esse jeito bandido. Meu jeito frustrado, inconstante e metido... e metido  a te querer quando acha que não te tem no total. Mas, no fundo, você sabe...  que eu te sigo devota! Te sigo quando você me ignora, te vejo quando seus olhos nem se lembram de quem eu sou. Não sei sossegar, não sei o que é paz! O tédio pra mim é a camisa-de-força da normalidade e você insiste em me amar anormal. Eu não sou o comum, mas você me quer. Eu não sei da constância e você me ama constantemente. E eu te amo sempre por entre meus cumes e vales. E eu te amo sempre por entre minhas paralisias e ápices. Eu sou o desassossego que te sossega o vazio da vida. Eu sou o amor que te cega e te pega, armadilha bandida. E você é a minha branda e ardente paixão. Quando eu digo que sim, você não. Quando eu digo que não, você já nem me escuta mais... Você acha engraçada a angústia que sente na vertigem da minha gangorra. Mas não desce de mim. Não me larga, porque eu sou seu contra-peso, é tendo meu corpo do outro lado que você se mantém nas alturas. Eu sou a loucura tola que te espana o pó da realidade. E você é a realidade incomum que pacifica minha insanidade. Eu sou louca e completamente louca por você. Eu sou minha e completamente sua por você. É que eu te tenho na terra, no chão, no duro, na cama. E você me tem entre nuvens e pássaros e esgotos e assombros de escuridão. Sou essa coisa incessante, esse game over sem fim. Sou essa coisa que ora pra que você não se enjoe de mim... Sou essa necessidade de vida que você me ajuda a viver... Sou esse traço do escuro que sua luz faz parar de sofrer... E você?!... Ah, você é aquela porção de tudo o que é bom da poção que jogou em mim... Você é aquele feitiço sem maçã, aquele dia debaixo do cobertor, aquela magia de quem se pendura na vida pela primeira vez...


Domingas  Alvim, BH, 2 de março de 2012.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Labirinto...

O pior labirinto
não é aquele em que nos perdemos,
mas o que se perde dentro da gente
nas veredas da saudade...


Domingas Cesário Alvim, BH, Janeiro de 2012.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Nosso direito vale o quanto vale...

            Você está com um amigo inglês (que mora no Brasil há dois anos) no guichê da rodoviária. A passagem custa 9,99. Seu amigo dá uma nota de dez reais. A atendente dá o bilhete a seu amigo. Você, que está na fila acompanhando-o, já vai saindo quando percebe que ele não se move. Diz pra ele: “Então, tudo certo?” Ele te responde, olhando pra atendente. “Tudo certo, não. Está faltando um centavo de troco!” A moça olha pro seu amigo com a mesma cara que você. Assustada, pensando: “Nossa, mas esse cara faz conta de um mísero centavo?! Que mão-de-vaca!” Mas seu amigo não arreda o pé. A moça diz que não tem um centavo pra dar de troco. Ele rebate dizendo que é dever da empresa devolver-lhe a quantia. Seu amigo fica parado. 

               Enquanto isso, você olha pra trás e percebe as pessoas da fila impacientes. Todas pensando a mesma coisa: “que mão de vaca!” Depois de cinco minutos nesse impasse, a moça vê que seu amigo não sairá da fila e começa a se mobilizar para arranjar o troco. Vocês saem praticamente xingados do local. Você decide conversar com seu amigo: “Pra que você criou aquela cena toda por causa de um centavo? Totalmente sem necessidade!” Ele, que é inglês, fica sem te entender? “Como assim, sem necessidade?” Pra te explicar a necessidade do troco, ele pega uma calculadora e, calmamente, te pede pra fazer as contas. Pense. Se naquela linha de ônibus cabem 50 passageiros e a empresa deixa de dar um centavo de troco pra cada pessoa, ela lucra 50 centavos por ônibus (além do que ela cobra pelo preço do bilhete). E se, naquela linha, a empresa possui ônibus que saem a cada 15 minutos (4 ônibus por hora), das 8 da manhã às 8 da noite (12 horas por dia), então, serão 48 ônibus saindo diariamente e lucrando 50 centavos de moedinhas de um centavo por ônibus, isto é, 24 reais por dia de lucro indevido, já que essas moedas pertencem aos passageiros e não à  empresa. Se você pensar num ano todo, essa empresa lucra 8760 reais por ano, só usando a tática do um centavo de troco, que ela sabe que você acha uma besteira e se recusará a cobrá-la. E isso também acontece em supermercados, lojas de departamentos, etc, que colocam suas mercadorias sempre com números bem quebrados, pois sabem que, para os brasileiros, não vale à pena brigar por um centavo. 

          E seu amigo inglês completa: “o que estava em jogo ali não era uma moeda de um centavo, mas o meu direito sobre aquela moeda. Nosso direito vale o quanto vale... Se eu abrir mão do meu direito por causa de um centavo, então, estou dizendo que meu direito não vale quase nada... Um centavo pode ser pouco, mas meu direito vale muito e eu não abro mão dele...”

E pra você? Quanto vale o seu direito?  


Domingas Cesário Alvim, BH, 18 de janeiro de 2012.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Minha coisa...

    Sigo... Vivendo com o sufoco da sua ausência que me embola a fala, que me enforca a paz... Eu aqui com os miolos cheios de você e o resto todo em falta... Numa adolescência tardia... Vivendo de coleção própria do álbum de figurinhas da memória... Descobrindo os dias em que te revelo nas noites... Cada te conhecer, um grau a mais de paixão... Termômetro que estoura quente derramando mercúrio tóxico... Envenenando-me... Parando de entender para sentir coisas estranhas que nos estranham tão bem no descabido... É tanta familiaridade... Como é que se esfria uma fervura que vem de dentro pra fora? Olho no olho, coração fugindo da mão e mão buscando saliva em dedos... Como, sem querer, você me transferiu seus ângulos e me ensinou a dormir na sua concha? Já diagnostiquei o meu mapa e você é o meu ponto final, a bula, a cura aos amores desfeitos... Aposta que me bateu em cheio, acertou bem no meio... Aos meus amigos imaginários, a famosa turma de mim mesma, digo o quanto é bom te amar... Sintonia de pele, sinfonia de carne... Como se o mundo terminasse ali, naquela linha do horizonte que poderia, um dia, nos separar em abismo... E pensar que quando você mergulhou no meu lago suspeitei que se afogaria, mas não... Oxigenou-me com seu anzol de ponta afiada... Fisgou-me pela boca, tirou-me as escamas... Limpou minha lama com sua faca de dentes e me fez querer respirar com guelras de sonho... Levou minha essência à superfície do romantismo perdido... Fiquei brega... Mas nadei feliz... Aumentei minha massa muscular e ganhei forças pra digerir o indigesto e suportar o peso da vida... Foi uma vontade catastrófica de jogar tudo pro alto e correr atrás de você como um cãozinho que sente o osso pelo faro... Cerquei-me dos seus limites de pessoa responsável que me faz rodar nos eixos, me carregando de seus olhares... me levando pelas mãos aos seus pontos turísticos... Faltam-me novidades à distância... Desliga-se a beleza quando o adeus chega pelo telefone... Ouvir seu cheiro... Sentir sua voz... Começar uma sensação que cresce somente do início ao fim dos dias e que me faz levantar com dois pés direitos e dizer ‘boa noite’ na cama das nuvens... Desafiando meu sossego, provocando meu juízo... Você consegue ser duas das minhas coisas preferidas: a minha música e a minha coisa... Seus sorrisos múltiplos me extorquem sentidos... E suas vontades me entopem de pensamentos que me paralisam o corpo... Sempre procurei um livro pra viver... Ao te abrir a primeira página, escrevi, em meu início... seu parágrafo final...

Domingas  Cesário Alvim, Petrópolis, 14 de maio de 2010.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Um novo ano pra mim

        Um novo ano nasce dentro da gente antes de nascer no calendário. O dia, a virada, os brindes não representam nada se não estivermos brindando nosso renascer. Renascer é virar a página do tempo, do nosso tempo. Renascer é pôr em prática novos planos, novas conquistas. Agir, agir e agir sobre as coisas.

Pro meu novo ano, que começou antes mesmo do ano novo, a palavra de ordem é ação. Ação para realizar, ação para realiz-ação! Pretendo fazer por mim o que só eu posso. Quero me reavaliar. Quero entender o que me fez mal como algo que hoje me faz bem, pois só por conta daquele mal foi que eu pude me superar e ser melhor que ele, melhor que o mal, melhor do que eu era antes dele aparecer.

Tudo na vida tem dois lados. Tudo na vida é feito de perdas... e ganhos... Basta sabermos reter o que foi ganhado e passar a borracha sobre a memória guardada do que foi perdido. O que se perdeu, na verdade, foi o que se venceu. O que foi perdido, será o aprendizado ganhado! Se o perdido foi gente, aí, sim, a gente perdeu. Se foi gente, a gente guarda no peito a saudade, que nada mais é que o sentimento do corpo tentando preencher a ausência. O resto é o resto e, pra todo resto, há jeito...

            Pro meu novo ano eu quero uma nova eu. Eu quero uma nova eu que saiba amadurecer em vez de envelhecer. Pois amadurecer e envelhecer não são a mesma coisa.  Envelhecer é apenas ficar velho, ganhar anos num mesmo ponto da estrada. Amadurecer, não. Amadurecer é envelhecer “pela” estrada, é percorrer o caminho no sentido da vida.

Quem pára no tempo, define-se. Define-se masoquista! Quem não sabe amadurecer não sabe ganhar o presente dos novos anos, pelo contrário, só ganha velhice.  Insistir em comportamentos que em nada nos acrescentam é perder-se da vida enquanto a vida passa. Quem se repete no próprio erro, se repete no meio do caminho, aliás, torna-se sua própria pedra... A pedra no meio de seu caminho...


Domingas Cesário Alvim, BH, 5 de janeiro de 2012. 


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Lágrimas

Chorar é uma coisa que todo mundo, por mais durão que seja, já fez. Todos nós já choramos ou ainda choraremos. Por desilusão, por saudade, por perda. Chorar limpa a alma. Ajuda o peito a esvaziar uma dor. Chorar, apesar de ser molhado, nos desencharca de um sentimento que está no limite do transbordar. Quando estamos tristes choramos e não há nada de sobrenatural nisso. Mas há algo de muito doido e inexplicável naquilo que representa o choro: as lágrimas. De onde vêm as lágrimas? Por que quando choramos, pingamos? As lágrimas são a saída de algo que nos compõe, a água. Quando vazamos, pelos olhos, o que mais temos no corpo é sinal de que uma coisa ultrapassou nossa barreira de matéria e, com força, tocou-nos num ponto muito denso. Mas as lágrimas não são só tristezas transbordando de nós. Choramos também por coisas boas. Deixamos rolar as gotas salgadas quando experimentamos situações que nos tocam fundo, que nos emocionam. Lágrimas são sinal de pureza, de beleza, de encontro. Lágrimas aparecem em altas gargalhadas, em músicas tocantes, em cenas de filmes, em paisagens divinas, em declarações de amor... Lágrimas são cumes de sentimentos que explodem como vulcões ativos, que precisam sair do que há debaixo de toda a carne, que precisam se materializar em algo que o corpo seja capaz de produzir, ainda que não seja capaz de entender. Quando algo nos lacrimeja é que nos atingiu no ponto mais sublime, no ponto mais anti-matéria do ser... Lágrimas são o corpo dizendo as palavras indecifráveis da alma...

Domingas Cesário Alvim, Petrópolis, 21 de Dezembro de 2011.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Porresia

Esse mundo é tão "do caralho"
que às vezes eu sinto que poesia
é só a porra do mundo
jorrando seu sêmen de Porresia!


Domingas Cesário Alvim, BH, 1 de Dezembro de 2011.



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O homem de vidro

       Quando o homem de vidro apareceu todos pensaram se tratar de mais um avanço da tecnologia, da robótica. Não era. O homem de vidro era um homem só homem, um homem de vidro. E como homem de vidro era transparente e talvez, por isso, tão aterrador, tão aterradoramente sincero e comum, tão aterradoramente transparente. O homem de vidro era a vitrine do homem. Por seu cristal límpido se via o homem refletido. Sua pele, camada lúcida, mostrava com toda sua limpidez o que havia dentro de qualquer um. No homem de vidro o homem de carne e osso se via como se pudesse tocar os mistérios da alma, se é que a alma tem lá mistério algum... E o qualquer homem atravessava o olhar no homem de vidro e o via sem se reconhecer. Via seu baço, seu fígado, seu sangue em pleno pulsar. Era o coração da humanidade que batia nu e nuamente naquele peito que subia e descia como qualquer outro impulsionado pelo ar ofegante da respiração da vida. O homem de vidro revelava a configuração do homem e o expunha até a essência. Até o brilho dos pensamentos e suas ínfimas correntes elétricas podia ser visto no homem de vidro quando ele olhava uma rosa de cor vivo, um animal de carne viva, uma pessoa vestida cobrindo tudo aquilo que o homem de vidro mostrava sem pudor. O homem de vidro era nu e nu andava. Até as partes naturalmente condenadas aos esconderijos dos tecidos estavam à mostra. Tudo livre, um doce no gingado da liberdade. O homem de vidro era humano, mas com uma diferença: era transparente. O homem de vidro tinha sua vida escancarada pelas retinas dos homens. Ele era devassável e, com isso, devasso... Quem era o homem de vidro, senão um homem sem máscaras? Seria possível isso? Um homem inteiramente despido? De carne, de osso, de sangue e sem camadas e camadas sociais? Pensaram se tratar de Adão, mas Adão fora feito do barro, da terra. Se bem que o vidro também é feito da areia... E a areia também é terra... Mas não, concluíram, Adão já havia morrido e o homem de vidro vivo ainda pulsava, visivelmente, entre nós. Dentro do homem de vidro havia quem ele era e ele era o ser. O ser que se é... Em cada parte sua, estampado um pedaço da memória do que seus olhos viam. O homem de vidro era feito de seus pais, seus tios, seus primos, seus amigos, seus livros, suas risadas, seus jardins, suas peças de teatro, seus filmes prediletos, suas dores, seus amores... Tudo aparecia naquela exposição exposta da vida fraturada. Até o ódio, por vezes, podia ser visto nele. O ódio era a imagem que também habitava o homem de vidro, próprio homem de carne... Segundo a parteira que o pariu, o homem de vidro nascera quase invisível. Tirando a fina camada vítrea de pele e seus órgãos, o homem de vidro ainda era sem imagens, uma tabula rasa, uma tela em branco, um quadro com capacidade cognitiva ainda a ser ativada pela vida da experiência, ainda a ser preenchido para ser um ser. Um ser só é se preenchido de ser, senão é só uma máscara, um sobretudo ambulante casca de ser. Foi como eu disse... No início pensaram ser um avanço da robótica. Isso não seria susto nenhum... Aliás, seria até aceitável... Mas um homem de vidro era demais pro homem... Um homem de vidro dizia muito do ser envernizado, mosaicado, vitrificado-translúcido que o homem é; dizia muito do ser encapuzado pela carne que olhava pra ele e, de tanto se reconhecer, não se queria, não se queria ver. O homem de vidro, de tão igual e transparente, tornara-se insuportável aparição. O homem ainda não estava preparado praquilo. Se ao menos ele fosse de mentira, mais uma mentira do homem, uma nova suposição, um avanço da robótica... Mas humanamente revelado, o homem de vidro era simplesmente insustentável. Era insustentavelmente humano para o humano. E, assim, o homem decidira pela morte do homem de vidro. Morto, com a morte vista em toda sua profundidade pelos olhos dos homens, o homem de vidro tornara-se objeto de contemplação, junto com todos os mártires... Ele era o inalcançável sucesso do homem que não se lembrava mais que, em criança, já fora homem de vidro... Mas, crescido, não! O homem não poderia encarar aquela aberração adulta de homem! Que homem? Que homem de carne suportaria olhar pelo buraco da retina da dura fechadura da existência humana?

Domingas Cesário Alvim, BH, 4 de Novembro de 2011. 



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Escrever por ser fantoche..

Estou mais que convulsa, ando convicta. Estou doente e escrever é minha doença... Doença sem cura, sem remédio a não ser a morte... Só a morte cura a escrita e, talvez, nem ela... Porque a escrita permanece, uma saída, o papel precisa dela... E os outros olhos que me leem as letras me avivam, me reanimam da minha parada respiratória eterna e, novamente, nos pulmões dos que me falam, solto o ar das minhas palavras... E, assim, ficarei tocando...  Tocando o mundo livre das minhas mãos... Tocarei corações com as minhas palavrassopros da vida... Tocarei a vida... Tocarei a vida em toda a sua microscopia... A vida é tão repetitiva, incansavelmente circular... Todo o micro é macro e todo macro é micro... Tudo numa reprodução tão anti-criativa que me intriga a sua ilusão de complexidade... Por que tantas pessoas não percebem o invisível? O simples invisível que nos ronda, que nos sonda, que nos cheira pra ver se temos olhos... Meus pensamentos me tomaram a vida... Agora, como sempre e como nunca vivo de pensar... Pensar se tornou sintoma, sintomático, automático... Somatizo meus pensamentos, quer dizer, eles me somatizam dentro deles e dentro de mim... Fico presa por dentro com olhos que olham pra fora... Olhos humanos que são apenas portais de tecnologia ultrapassada, pois que mal nos permitem enxergar o que está debaixo de nossos narizes... Meus olhos são tão ultrapassados que não enxergam minha própria boca, que não se enxergam um ao outro... E o que se vê por fora se os pensamentos só têm olhos pra dentro? Temos essa dupla visão que permeia toda a ambigüidade do mundo, do homem... O homem só é por oposição e por isso é ambíguo... Somos todos educados em símbolos que, ao existirem, dão à luz a seus opostos... Quando dizemos o que não é, por si só, afirmamos já o que é... E somos vivos... Vivos opostos à morte que, quando mortos, estamos no oposto lado da vida... Onde fica mesmo? O oposto lado da vida? No espelho? O oposto lado da vida está guardado dentro de um espelho, dentro de um banheiro de um posto de gasolina chinfrim perdido numa rota perdida no interior do menor país do mundo... Naquela via-veia da vida um homem disse ter se visto com os olhos trocados, com o corpo dentro do que não existia, da imagem irreal que o homem via dentro de um espelho que era um espaço plano e tridimensional e profundo como deve ser a vida, como deve ser a morte... Eu me livrei da morte, mas não da escrita... A escrita ocupou-me de tal forma que me ocupou o lugar da morte... Você não me assombra mais, ouviu, sua oposição do ser! Estou tão aberta à vida, que estou liberta... Mas ainda sei que sou um fantoche preso... Um fantoche de uma mão invisível chamada pensamento... Um fantoche de uma mão invisível chamada destino... Na verdade, acabo de perceber que sou um fantoche de duas mãos! Ou seriam duas mãos que, na verdade, seriam dois lados de uma mesma mão? Porque uma mão, como uma moeda, também tem duas faces... E a parte de cima da mão, apesar de não ser a debaixo, não deixa de ser o todo que é mão... Ai... Somos tão ingênuos... Precisamos ser... De que outra forma sobreviveríamos? Há um abismo entre tudo o que nos é colado... Tudo o que nos é colado e grudado e tatuado e encravado é tão distante de nós quanto a galáxia das distâncias... A galáxia das distâncias nos é tão simbiótica, tão siamesa, que nos esquecemos que ela está em nós... E como tudo o que esquecemos em nós é aparentemente invisível, a galáxia das distâncias senta muda do nosso lado e assiste conosco, até o fim, o sonoro filme de nossas próprias vidas...


Domingas Cesário Alvim, BH, 28 de outubro de 2011.